A operação jurídica global entrou em uma nova fase: a do desequilíbrio estrutural entre demanda e capacidade interna. O relatório CLOC State of the Industry 2026, desenvolvido em colaboração com a Harbor, líder global em tecnologia e consultoria jurídica, e baseado em dados de 135 empresas em mais de 15 setores, mostra que departamentos jurídicos enfrentam um crescimento acelerado do volume de trabalho, enquanto seus orçamentos e equipes permanecem praticamente estagnados. Embora o relatório não mencione especificamente os países participantes da pesquisa, ele se baseia em uma amostra global robusta que reflete de forma consistente as principais tendências do setor. O resultado a partir desse estudo é um gap de produtividade sem precedentes, que está redefinindo o papel da tecnologia, da automação e da governança jurídica nas empresas.
O que é o Gap de Produtividade e por que ele nunca foi tão grande
O gap de produtividade surge quando a quantidade de trabalho jurídico cresce mais rápido do que o orçamento e o tamanho da equipe, criando uma lacuna operacional que não pode ser resolvida com estratégias tradicionais. O CLOC mostra um cenário claro: 47% dos departamentos esperam aumento no gasto interno (bem abaixo dos 65% do ano anterior), enquanto apenas 32% preveem crescimento no número de advogados, sinalizando que contratar mais profissionais deixou de ser uma saída viável. Ao mesmo tempo, o gasto com escritórios externos também desacelera, com apenas 37% das empresas prevendo aumento. Esse conjunto de fatores deixa evidente que as equipes jurídicas precisam encontrar novas formas de ganhar eficiência sem recorrer a recursos adicionais.
Por que a demanda jurídica está aumentando tanto?
O relatório identifica um aumento expressivo da demanda jurídica justamente nas áreas mais complexas e intensivas em trabalho. 63% das empresas reportam alta no volume regulatório, 58% em cibersegurança e governança de TI, e 53% em contratos (três áreas que exigem detalhamento, precisão e acompanhamento contínuo, o que aumenta enormemente a carga operacional do jurídico). Isso reflete um ambiente global de negócios mais regulado, mais digital e mais exposto a riscos de compliance e segurança. Com leis mudando o tempo todo, novas exigências de privacidade e processos de contratação mais sofisticados, o departamento jurídico tornou-se um pilar estratégico, mas ainda sem o reforço estrutural necessário para acompanhar essa centralidade.
Como a automação reduz o gap de produtividade — e lições para o Brasil
Diante desse cenário, o relatório evidencia a automação como o único caminho escalável. Em 2026, 80% dos departamentos priorizam estratégia de tecnologia, enquanto 85% já estabeleceram governança formal de IA (um salto que mostra que a tecnologia deixou de ser experimental e passou a ser parte da infraestrutura operacional do jurídico). Soluções como automação de documentos, sistemas de workflow, ferramentas de intake e análise de dados reduzem gargalos, aceleram decisões e liberam a equipe para atividades de maior valor estratégico. Para o Brasil, onde muitos departamentos ainda operam de forma manual e descentralizada, a lição é clara: a maturidade digital não é mais diferencial, é requisito para sobrevivência, especialmente em um ambiente regulatório que se aproxima cada vez mais dos padrões internacionais.
Referência:
CLOC State of the Industry Report – CLOC